“Não tenho certeza de quase nada na minha curta e curiosa vida”. Desconfio que comece a construir agora e, apesar do pouco, já ter destruído muito… Ao limite da auto-destruição sim, cheguei! E lá, mergulhado fundo num mar negro, já convencido de que morreria afogado me entreguei a familiarizada morte.
Nessa transição, linha ‘mortal’ de vida-morte, do preto-branco, do macho-fêmea, do yin-youg, da mãe-filho, um vendaval sem origem me desnorteou e me perdi entre meus órgãos, pensamentos, opiniões, conceitos, instituições e até personalidade, caráter e índole. Vácuo… E voei dentro de mim.
Ainda banhado em lama com mãos leprosas desejando trazer-me para baixo, pro inferno; dos meus poros saíram tudo o que não me pertencia e que parasitavam dentro de mim. E meus órgãos, pensamentos, opiniões, conceitos e instituições iniciaram seus próprios caminhos. Caminhos esses que só tomariam. Criariam.
O tal vendaval interno fez-me boiar, com dificuldade, pois os apodrecidos pedaços de carne que ali habitavam queriam desesperadamente comigo subir. A mudança repentina e esperançosa me presenteou com força e méritos para consegui chegar a tal superfície. Fétida, e esperada. E lá, aquela luz, aquela claridade que me cegava e o puro ar que inflava meus secos pulmões, preencheram meu vácuo e me senti vivo, pela primeira vez. Vivo!
Aprendendo a nadar, passando por cima dos meus medos personificados, continuo desengonçado para não mais afundar, e vejo tão distante uma cor que nem consigo distinguir. Atraído sigo-a sem qualquer plano, malícia, ambição ou interesse. Deixei tudo isso no fundo das águas imundas. E a partir daquele momento, tudo pra mim seria primitivamente novo. Vivia num escuro umbral. Aliás, sobrevivia.
Nadava sem descanso. Nadava com sede, fome, vontade de vida. E divertindo-se no raso, o inédito me sussurrou ao pé do ouvido que o novo ansiosamente me esperava. Mesmo que falecesse, apressei-me e ofegante, cheguei. Pisando em solo firme, a realidade me julgou desconcertado e com solidariedade batizou-me com a verdade. Assim ganhei de volta minha confusa personalidade, meu vulnerável caráter e minha ingênua índole. Tudo de volta, do mesmo jeito que as abandonei, ou roubaram-me. Sempre dopado, não lembro. Mesmo não podendo minto. E minto tão bem a mim mesmo, que não lembro.
E a cor… A tal cor! O Novo me apresentou a cor que me atraiu e que na teoria da explicação que recebi, encheria meu vácuo, e iria emocionar-me. Mas nada disso aconteceu e mesmo assim, num diferente e colorido lugar onde todos os dias são belos e noite não há, não sinto o que sentia. Rodeado e sufocado pelo inédito, ainda nada sinto. Cospem-me o amor na cara. Esfregam o zelo na minha pele, e eu nada sinto. Dão-me banho de ervas de paixão. Chá de amor próprio. E eu nada sinto. Nada.
Num pensamento pobre pensei em voltar ao mar negro. Lá é meu lugar? E me pergunto o porquê de ter sido eu o escolhido. Havia tantos por lá… O que sentia por lá machucava, feria e não cicatrizava. A ferida ficava aberta. Esse era o castigo: todos podiam vê-la e cutucá-la. Mas lá algo sentia mesmo morto. Sei que para lá não volto, jamais! Não sei se aqui fico, rapaz. Ainda continuo a não sentir nada. Continuo a não ter certeza de nada. Nada. “E nunca terei.”
Por Dan R.