
A primeira cena já conquista. Uma parede: metade clara, metade sombreada. Um homem bate com um martelo na metade escura. Logo se percebe que são duas faces de uma mesma parede, pois na metade iluminada começa a surgir um buraco, consequência natural daquela ação. Ação e reação no mesmo quadro. Verso e reverso. O que vai, volta.
É assim, logo de cara, que o conflito do filme é exposto: o vizinho (Victor) quer construir uma janela em sua casa. O problema é que sua construção será feita no muro que divide com a casa ao lado. Ele diz que quer apenas “uns raiozinhos de sol”. O vizinho atormentado (Leo) diz que construir uma janela na divisa entre as duas casas é ilegal, no que o outro rebate perguntando porque ele não reclama das janelas do prédio à sua frente através das quais um número considerável de pessoas pode observá-lo.
É um questionamento intrigante também para quem assiste. O filme todo, portanto, aborda o tema da privacidade. Até que pontos estamos tranquilos sendo observados ou não? Ou melhor, até que ponto percebemos esta invasão de olhares? A casa de Leo (que é um designer renomado) é toda em estilo moderno, grandes janelas, espaços grandes, tanto que é uma referência para as pessoas que visitam aquela cidade, que param na sua frente para tirar fotos, como se fosse um cartão-postal da arquitetura.
É interessante como o diretor trata da questão da janela, não só como objeto físico mas também das “janelas dos programas de computador”, “janela (recorte) da câmera”. Em uma cena na qual o Leo está avaliando seu site feito, todo o quadro é preenchido pelo site, ouvindo apenas os comentários dos personagens. Em outra, ele está filmando uma reunião com amigos e toda a cena é vista através da câmera utilizada pelo personagem.
Vou abrir um parênteses aqui para uma cena me chamou atenção por motivos bem pessoais, na qual retrata alguns vícios e problemas do documentário. Leo está sendo entrevistado e a entrevistadora pede para que no início de cada resposta seja inserida a pergunta, pois o material vai ser editado e a voz da repórter não pode aparecer. A gravação “perfeita” também pede uma entrevista sem barulhos, difícil de controlar quando se tem uma obra bem ao lado. Como trabalho com documentários, sem bem o que é isso. Nos meu último trabalho (“Real”, em finalização) deixei essas preocupações de lado e tentei abraçar aquilo que está acontecendo daquele jeito. Se tem um barulho durante a entrevista, que seja. Se tem um papagaio cantando no quintal da pessoa, como posso pedir para o entrevistado – que já está sendo invadido por uma equipe de cinema – mandar o bicho calar a boca ou escondê-lo para minimizar o ruído? A essas e outras preocupações estéticas do documentário tenho tentado deixar de lado e absorver o acontecimento tal como ele se apresenta naquele momento, com todas as intervenções que a situação permite ou não.
Voltemos ao filme. O dilema dos dois vizinhos possui uma certa dose de bizarrice. O roteiro é inteligente e certas frases – ou talvez mais a forma como os atores as interpretam – chegam a ser impagáveis, como “necessito de um pouco do Sol que você não usa”.
O filme também brinca com o som em vários momentos. O casal está assistindo um filme e ouve-se o som de uma batida. “O subwoofer desse home theater é ótimo”, comentam. Logo percebem que as batidas não só são “tão reais” como vêm do próprio vizinho e sua polêmica obra. Risos. Isso é o humor sutil do cinema brincando com o cinema.
Vá assistir. Vale a pena pagar 15 reais para dar umas risadas involuntárias com um filme de qualidade. É um filme que dá muito o que falar e pensar.
Nota: as salas de cinema do Espaço Laura Alvim são as piores. As projeções são prejudicadas pelo fato da luz da cabine ficar acesa, causando uma imagem “lavada”, clara, imperfeita. Em salas maiores este fato pode até ser aceitável, mas a interferência vai depender do tamanho da sala, e no caso das salas do Laura Alvim, elas são pequenas, e aquela luzinha acesa complica e atrapalha. Só vou lá novamente se eu realmente não tiver outra opção.